sexta-feira, 15 de maio de 2015

# 29 Tomates

No primeiro ainda são muito inocentes. No segundo já são mais sabidos. Para além de terem namorados, alguns mais avançadinhos chamam aos abraços que dão: “fazer sexy”! Mas com o terceiro é sempre a subir. É o ano da anatomia. Nota-se logo o frenesim. “Ó ticher, como se diz pénis em inglês?” “E vagina?” E riem-se que nem uns perdidos sem saber bem porquê. Mas não satisfeitos com nomes em inglês tão parecidos com os portugueses, insistem em que lhes revele os homólogos anglófonos de “pilinha” e “pipi”: willy e moo moo. E com nomes destes a risota é ainda maior.
Ora, estava bem de ver que quando começasse a dar o tópico Food a histeria fosse estratosférica. E foi. Logo que viram a palavra no cartaz começaram os espertinhos a ler com todo o denodo: “Fod”. Perante o meu ar sério e o gáudio da plateia, fingem de inocentes: “Mas teacher é o que está lá escrito!”. Claro. Depois vêm os “tomatoes”. Os tomates no cartaz levam sempre ao trocadilho evidente. Este ano a galhofa foi ainda maior porque o brasileiro da turma explica que no Brasil os tomates são ovos. E acrescento eu. “E na Inglaterra são nuts” Se não os podes vencer... junta-te às metáforas alimentares.
Na quarto ano foi mais hardcore. Um queixinhas diz-me “O Vítor estava a gozar, a dizer que tinha tomatoes, ticher!” “Ai tem?” Desafio, farta do raio da conversa dos tomates. “Agora traz tomates para o lanche, é?” Apressa-se um a esclarecer-me: “Não ticher, são as bolinhas”. “Quais bolinhas?” Pergunto esticando a corda. “Os tintins”. Continuei a fingir desconhecimento a contar que acabasse por dizer “testículos”. Qual quê! Com um ar sério de quem já não sabe como esclarecer tal ignorante, sai-se com um “Os c......., teacher!”. No comments.

quinta-feira, 19 de março de 2015

# 28 Daddy


Garanto que o canudinho do diploma do “Best dad” devia estar irrepreensivelmente enrolado e atado com um amoroso lacinho da cor do clube do respetivo daddy. Mas da ideia inicial à peça final vai um longo caminho de percalços. Os extras podem variar entre marcas de pisadelas, dedadas, riscos, rasgões, amarfanhamentos vários ou mesmo extravio. Não que os papás se importem. Como dizia hoje o Rafael, quando lhe disse que devia esforçar-se mais e fazer melhor: “Oh, o meu dad gosta de qualquer coisa que eu lhe der!”. E toca de “estragar” o projeto da teacher. Para um professor é mesmo uma camada de nervos. Tanto esforço para encontrar a lembrança adequada. O desgaste extra para controlar miúdos armados de tesouras, colas, fitas e afins. A trabalheira a cortar, refazer, colar... e depois o que chega a casa é um irreconhecível arremedo do que tinha sido pensado. [Suspiro]
Mas estes dias têm um lado muito mais sensível. A realidade de algumas crianças não se compadece com datas especiais. Há os que recusam fazer a prenda porque já não têm pai; outros que o tendo, nunca o viram e dizem que o “pai é mau” porque foi embora. Outros choram porque “o papá foi trabalhar para longe e só vem no verão” e outros que se regozijam porque, sorte das sortes, este fim-de-semana é com o pai. E depois há a Camila. De sorriso aberto declara-se uma sortuda porque vê o pai todos os fins-de-semana. Pergunto-lhe se está separado da mãe. “Não, ticher, está na cadeia, mas vou visitá-lo todos os domingos”.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

# 27 Constrangimentos


O melhor remédio para curar pudores e pruridos é lidar com miúdos. No mundo xs não há cá subtilezas nem meias palavras. Não sabem o que é politicamente correto e se lhes parece, dizem-no. Alguém com flatulência é impiedosamente apontado e um coletivo de bufos há-de gritar indignadamente: "Ticher, o Afonso peidou-se"; os bufos mais sensíveis dirão "O Afonso deu um pum!" e os engraxadores aproveitarão para perguntar como se diz "pum" em inglês", mas ninguém vai fingir que cheira a rosas. Um elefante no meio da sala nunca é ignorado. E se o elefante for o tamanho avantajado ou diminuto da professora, a cor de pele ou do cabelo ou seja lá o que for que fuja do habitual, os miúdos vão comentar. Não é por mal, nem por bem. É assim mesmo. Se não estás preparada para lidar com isso é melhor pensares noutra profissão.
Tens um canino mais saliente? “Oh, a ticher parece um vampire”; Descuidaste a pintura do cabelo? Vão ser muitos a lembrar-to: “Tens cabelos brancos. Pareces a minha avó.” 
Uma tarde vou de cara lavada e logo um pergunta: “Acordaste agora, não foi ticher?” ou então ainda pior “Estás com ar doente”; noutra ocasião, tendo eu eructado discretamente, diz-me um sorridente “Comeste bifanas ao almoço!”. “Não. Porque dizes isso?” “Cheirou-me!” Até fiquei com azia! 
E quando uma aluna perguntou se ia ter bebé? Fiquei de todas as cores e, claro, bani para sempre aquele top justinho que eu achava que me ficava tão bem. Há dias, após um comentário sobre alturas, levanta-se um e vem medir-se em relação a mim. Triunfante, exclama: “Olha, já chego às mamas da ticher”; logo outro quer medir-se também, e às tantas tinha um bando de miúdos à minha volta a ver se já me chegavam ao peito e a repetir esganiçadamente as suas alturas tendo como referência... “as mamas da ticher”. Se isto não é dar o corpo à docência não sei o que será.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

# 26 Christmas


A época natalícia é sempre uma tormenta para qualquer professor. Como manda a tradição, e o programa também, o tema “Christmas” é incontornável. É um enjoo de sinos, pais natais, árvores de Natal e de desajeitadas sessões de arts and crafts. Era tão mais simples se se acabasse com a tortura da lembrancinha. Poupavam-se as voltas na net para encontrar a peça perfeita para replicar numa turma enorme. Poupavam-se os papás do fingido deslumbramento face a um sino tosco a desfazer-se ou a um anjinho, que de celestial só tem o nome. E no fim de tanto esforço, há sempre um miúdo que se queixa que a “prenda” do ano passado era muito mais gira! Dou comigo a ranger os dentes e a mandá-lo procurar o Santa no Pólo Norte... Depois são as cantorias, mais ou menos esganiçadas, numa língua vagamente inspirada no inglês. Os versos entranham-se na mente e damos por nós a cantarolar  “Vivichiu da meri quissmas ane a épi nu iú”.  Ou então o “Jingle Bells”, que começa em inglês e termina invariavelmente com um “limpa-se ao papel” ou com o twist muito apreciado “...o jornal está caro limpa-se às calças da ticher”. Lindo e em sintonia com o espírito da época.
A data levanta sempre questões delicadas. A mais temida é: “Ó ticher, o Pai Natal existe mesmo?” ou “As prendas são os pais que dão, não são?”. Nunca sei o que responder. Com que direito vou matar a esperança numa fantasia tão gira que fala de um senhor bondoso que distribui prendas a todos os meninos? Por outro lado, deverei perpetuar uma mentira e continuar a mistificação? Às vezes o pedido de esclarecimento é entre uma versão “Pai Natal” e outra “Menino Jesus”. A discussão entre as claques é acesa. Convém dar uma no cravo e outra na ferradura e concordar com o menino que resolveu a disputa: “O Pai Natal é o empregado do menino Jesus, porque este é pequenino para andar a distribuir prendas”. Have yourself a merry little Christmas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

# 25 Ingliche

Há palavras que fazem as delícias da audiência e só percebi porquê quando ultrapassei a minha “adultez”. Agora digo-lhes logo que “put” não é palavrão e que “page” não é “pum” em inglês. Mas o que os leva a um estado perto do paroxismo é quando escrevo “Food” no quadro. Está-se mesmo a ver, não está? The F word! E escrita pela teacher. Quando chegamos ao tema “animais da quinta” há sempre uns quantos que juram que cabra se diz “bitch” e que ficam incrédulos quando lhes afianço que bitch é cadela (as traduções eufemísticas dão nisto). Desconfiados ficam quando lhes respondo, impávida, que WTF quer dizer “mas que raio!”. Uma, sabida, ainda diz: “mas o meu irmão disse-me que eram palavrões!” “Quais?”Pergunto. Sem coragem para mos repetir em português, cala-se e os outros ficam na dúvida. O nível de conhecimentos de vernáculo é já muito, o de inglês é que nem por isso.
Há dias ouvíamos uma canção que dizia “Hello, boys / Hello, girls”. Pergunto com otimismo: “Adivinham o que são boys?” Está-se mesmo a ver que são... bois! Incrédula: “Bois? Então achas que a música dizia ‘olá bois’?” e acrescento, “Então girls não é meninas?” Responde-me:  “Ah, assim tinha de ser vacas”. Tem lógica.
Informo na primeira ocasião que “sorry, I’m late” não tem nada a ver com laticínios e que o contrário de “big” não é “Sumol”. Mas ainda assim há situações que, para quem sabe inglês, não são compreensíveis à primeira. Quando ensinava as cores, viro-me para um menino e pergunto-lhe “What’s your favourite colour?” Responde-me com toda a convicção: “De batom”. What?! Que raio de cor é essa? Até que percebo a confusão: Cola! Em vez de “colour”, soou-lhe a cola! E de entre as colas prefere as de “batom”. Não é óbvio?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

# 24 Artes

Na bolsa de valores do primeiro ciclo os dotes artísticos são dos mais valiosos. Saber cantar, dançar, tocar ou desenhar garante automaticamente a admiração e a atenção dos miúdos. Não há como uma cançãozinha para os fazer memorizar. E aquietam-se sempre que alguém puxa da guitarra e dedilha uma moda qualquer... Que inveja desses virtuosos dos instrumentos. É de fazer dó a minha incapacidade para distinguir um ré de um mi, reproduzir um ritmo ou cantar um simples Happy Birthday sem desafinar. Para me safar nas cantorias recorro ao playback e aprendi a refinar a arte do la la la la sempre que me escapa a letra.
A dança é outra arte inatingível. Acertar com uma coreografia básica é um desafio à minha natural descoordenação. Com o tempo fui melhorando. De início ficava de tal modo ansiosa a tentar acertar todos os gestos que, no “Head, shoulders, knees and toes”, trocava as partes do corpo e acabava de cabeça perdida a tentar remediar a trapalhada. Com tanta risota desconfiei que a minha arte era afinal a palhaçada. Seja como for ainda me restavam os desenhos. É claro que são quase sempre cópias à vista de outros, mas pelo menos assim não sofro a humilhação de ter de legendar as obras. A ajuizar pelos rasgados elogios dos pimpolhos os meus desenhos até são aceitáveis. A ideia de estarem apenas a dar graxa à teacher não me ocorreu. Achei sempre que era mais falta de vista, de sentido estético ou simples bondade. Um dia, passando despercebida atrás de algumas alunas, oiço uma delas perguntar apontando para o Easter Bunny, de minha autoria, que decorava um dos posters alusivos à Páscoa: “Quem é que desenhou aquele porco ali?". Pois, um verdadeiro triunfo artístico.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

# 23 Privacidade

A “popularidade” que em tempos a breve incursão pelo jornalismo televisivo me trouxe incomodava-me. Bastava um relance de uma madeixa minha e lá vinham as vizinhas congratular-me pela aparição pública. Acabei por escolher o anonimato. Prezo demasiado o poder andar despreocupadamente pelas ruas... Até que me tornei “teacher” e esses dias acabaram. No primeiro ano de trabalho calharam-me dez turmas, em média com vinte miúdos cada. Mais os outros todos que nos reconhecem dos intervalos. Do dia para a noite tornei-me “popular” na minha cidade. No supermercado, numa esplanada, num jardim é invariável ouvir: “Olha, está ali a minha ‘ticher’? “Quem?!” - perguntam os pais. “A minha professora de inglês!”. Sorriem envergonhados, acenam, e obrigam os adultos a olhar para a “ticher” deles. E eu, de sorriso amarelo a amaldiçoar ter adiado a ida ao cabeleireiro ou o ter vestido a primeira coisa que me veio à mão. Os mais afoitos correm, querem um beijinho e alguns assustam-me quando vou pela rua de headphones nos ouvidos e me agarram à traição! E falando de sustos, foi grande o que apanhei quando encontrei um dos pirralhos na natação. Mal o vi pensei logo nos comentários da turma na segunda-feira. Okay, estou com ar de inseto gigante de fato de banho, óculos e touca enfiada, mas pronto, podia ser pior. E foi. À saída do duche oiço uma vozinha familiar: “Olá, teacher!”. Só quis um buraco para me enfiar. Que raio faz um miúdo de nove anos no balneário das senhoras? Para as mamãs extremosas os filhos são bebés a vida toda, mas eu sou só a teacher deles, got it?