domingo, 6 de setembro de 2015

# 31 Humores


Os pequenos não escondem as emoções e, se for preciso, na aprendizagem das mesmas, ficcionam-nas. Quem não está habituado cai sempre na armadilha das lágrimas ou da gargalhada descontrolada. As mood swings em versão infantil podem ser desconcertantes. Vê-los passar de um semblante triste de cortar o coração, à mais descarada felicidade é tão normal como trocar de melhor amigo para sempre. Rir, chorar, gritar ou amuar são expressões ainda não domesticadas e de valor facial próprio. E à falta de análise laboratorial, como distinguir a lágrima genuína das outras? Fingirão a dor que deveras sentem ou sentirão como dor, as dores que deveras não sentem? Qualquer Pessoa ficaria confusa.
A Joana deixava cair lágrimas no que me pareceu uma tristeza profunda. Perguntei-lhe o que se passava. Abanava a cabeça desalentada. Não respondia e continuava a chorar. “Algum menino te fez mal?” Que não, que não era isso. Continuei a aventar hipóteses até que lá se descoseu e, entre fungadelas, disse-me que era o pai, que já não o via há muito tempo, que tinha ido trabalhar para longe. Comovida, pensei na crise e no desemprego que leva tantos pais para longe e abracei-a. Desconfiada e meio enciumada pela atenção que a Joana estava a ter, a Rita aproximou-se para se inteirar da situação. Expliquei que a colega estava triste porque o seu pai estava longe. “Longe?!” Disse a Rita. “Ó Joana, ainda ontem te veio buscar à escola e fomos juntas para a tua casa!” Perplexa, olhei para a Joana, esta encolhe os ombros, sorri, dá a mão à Rita e lá foram as duas à sua vida. Go figure...

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

# 30 Bichos


(AVISO: esta crónica versa temas viscosos e poderá ferir os leitores mais sensíveis)

...E ao fim de umas semanas as defesas cederam. Enxames de bichinhos novos e oportunistas atacaram sem tréguas. Primeiro, veio o estrépito: tosse constante, pigarro alérgico a giz, espirros e expectoração a pedir alívio. Depois, pior ainda, sobreveio o silêncio. A voz esgotada e pouco acostumada a exigências traía-me, cobarde, fazendo fintas à minha genica de principiante. De outubro a abril foi este o calvário: constipação, rouquidão, afonia e de novo constipação, rouquidão, afonia... Um loop interminável até os meus entorpecidos anticorpos perceberem em que alhada estavam metidos. Da contenda, saí com imunidade para a vida. Vagas sucessivas de vírus e bactérias resvalam, agora, na couraça das minhas superdefesas. Exposta amiúde a chuva de perdigotos, gotículas de espirro, saliva e muco nasal recordo com incredulidade os tempos em que qualquer inocente perdigotozinho que me atingisse era recebido com um esgar de nojo. Ah, frescuras pré-teacher.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

# 29 Tomates

No primeiro ainda são muito inocentes. No segundo já são mais sabidos. Para além de terem namorados, alguns mais avançadinhos chamam aos abraços que dão: “fazer sexy”! Mas com o terceiro é sempre a subir. É o ano da anatomia. Nota-se logo o frenesim. “Ó ticher, como se diz pénis em inglês?” “E vagina?” E riem-se que nem uns perdidos sem saber bem porquê. Mas não satisfeitos com nomes em inglês tão parecidos com os portugueses, insistem em que lhes revele os homólogos anglófonos de “pilinha” e “pipi”: willy e moo moo. E com nomes destes a risota é ainda maior.
Ora, estava bem de ver que quando começasse a dar o tópico Food a histeria fosse estratosférica. E foi. Logo que viram a palavra no cartaz começaram os espertinhos a ler com todo o denodo: “Fod”. Perante o meu ar sério e o gáudio da plateia, fingem de inocentes: “Mas teacher é o que está lá escrito!”. Claro. Depois vêm os “tomatoes”. Os tomates no cartaz levam sempre ao trocadilho evidente. Este ano a galhofa foi ainda maior porque o brasileiro da turma explica que no Brasil os tomates são ovos. E acrescento eu. “E na Inglaterra são nuts” Se não os podes vencer... junta-te às metáforas alimentares.
Na quarto ano foi mais hardcore. Um queixinhas diz-me “O Vítor estava a gozar, a dizer que tinha tomatoes, ticher!” “Ai tem?” Desafio, farta do raio da conversa dos tomates. “Agora traz tomates para o lanche, é?” Apressa-se um a esclarecer-me: “Não ticher, são as bolinhas”. “Quais bolinhas?” Pergunto esticando a corda. “Os tintins”. Continuei a fingir desconhecimento a contar que acabasse por dizer “testículos”. Qual quê! Com um ar sério de quem já não sabe como esclarecer tal ignorante, sai-se com um “Os c......., teacher!”. No comments.

quinta-feira, 19 de março de 2015

# 28 Daddy


Garanto que o canudinho do diploma do “Best dad” devia estar irrepreensivelmente enrolado e atado com um amoroso lacinho da cor do clube do respetivo daddy. Mas da ideia inicial à peça final vai um longo caminho de percalços. Os extras podem variar entre marcas de pisadelas, dedadas, riscos, rasgões, amarfanhamentos vários ou mesmo extravio. Não que os papás se importem. Como dizia hoje o Rafael, quando lhe disse que devia esforçar-se mais e fazer melhor: “Oh, o meu dad gosta de qualquer coisa que eu lhe der!”. E toca de “estragar” o projeto da teacher. Para um professor é mesmo uma camada de nervos. Tanto esforço para encontrar a lembrança adequada. O desgaste extra para controlar miúdos armados de tesouras, colas, fitas e afins. A trabalheira a cortar, refazer, colar... e depois o que chega a casa é um irreconhecível arremedo do que tinha sido pensado. [Suspiro]
Mas estes dias têm um lado muito mais sensível. A realidade de algumas crianças não se compadece com datas especiais. Há os que recusam fazer a prenda porque já não têm pai; outros que o tendo, nunca o viram e dizem que o “pai é mau” porque foi embora. Outros choram porque “o papá foi trabalhar para longe e só vem no verão” e outros que se regozijam porque, sorte das sortes, este fim-de-semana é com o pai. E depois há a Camila. De sorriso aberto declara-se uma sortuda porque vê o pai todos os fins-de-semana. Pergunto-lhe se está separado da mãe. “Não, ticher, está na cadeia, mas vou visitá-lo todos os domingos”.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

# 27 Constrangimentos


O melhor remédio para curar pudores e pruridos é lidar com miúdos. No mundo xs não há cá subtilezas nem meias palavras. Não sabem o que é politicamente correto e se lhes parece, dizem-no. Alguém com flatulência é impiedosamente apontado e um coletivo de bufos há-de gritar indignadamente: "Ticher, o Afonso peidou-se"; os bufos mais sensíveis dirão "O Afonso deu um pum!" e os engraxadores aproveitarão para perguntar como se diz "pum" em inglês", mas ninguém vai fingir que cheira a rosas. Um elefante no meio da sala nunca é ignorado. E se o elefante for o tamanho avantajado ou diminuto da professora, a cor de pele ou do cabelo ou seja lá o que for que fuja do habitual, os miúdos vão comentar. Não é por mal, nem por bem. É assim mesmo. Se não estás preparada para lidar com isso é melhor pensares noutra profissão.
Tens um canino mais saliente? “Oh, a ticher parece um vampire”; Descuidaste a pintura do cabelo? Vão ser muitos a lembrar-to: “Tens cabelos brancos. Pareces a minha avó.” 
Uma tarde vou de cara lavada e logo um pergunta: “Acordaste agora, não foi ticher?” ou então ainda pior “Estás com ar doente”; noutra ocasião, tendo eu eructado discretamente, diz-me um sorridente “Comeste bifanas ao almoço!”. “Não. Porque dizes isso?” “Cheirou-me!” Até fiquei com azia! 
E quando uma aluna perguntou se ia ter bebé? Fiquei de todas as cores e, claro, bani para sempre aquele top justinho que eu achava que me ficava tão bem. Há dias, após um comentário sobre alturas, levanta-se um e vem medir-se em relação a mim. Triunfante, exclama: “Olha, já chego às mamas da ticher”; logo outro quer medir-se também, e às tantas tinha um bando de miúdos à minha volta a ver se já me chegavam ao peito e a repetir esganiçadamente as suas alturas tendo como referência... “as mamas da ticher”. Se isto não é dar o corpo à docência não sei o que será.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

# 26 Christmas


A época natalícia é sempre uma tormenta para qualquer professor. Como manda a tradição, e o programa também, o tema “Christmas” é incontornável. É um enjoo de sinos, pais natais, árvores de Natal e de desajeitadas sessões de arts and crafts. Era tão mais simples se se acabasse com a tortura da lembrancinha. Poupavam-se as voltas na net para encontrar a peça perfeita para replicar numa turma enorme. Poupavam-se os papás do fingido deslumbramento face a um sino tosco a desfazer-se ou a um anjinho, que de celestial só tem o nome. E no fim de tanto esforço, há sempre um miúdo que se queixa que a “prenda” do ano passado era muito mais gira! Dou comigo a ranger os dentes e a mandá-lo procurar o Santa no Pólo Norte... Depois são as cantorias, mais ou menos esganiçadas, numa língua vagamente inspirada no inglês. Os versos entranham-se na mente e damos por nós a cantarolar  “Vivichiu da meri quissmas ane a épi nu iú”.  Ou então o “Jingle Bells”, que começa em inglês e termina invariavelmente com um “limpa-se ao papel” ou com o twist muito apreciado “...o jornal está caro limpa-se às calças da ticher”. Lindo e em sintonia com o espírito da época.
A data levanta sempre questões delicadas. A mais temida é: “Ó ticher, o Pai Natal existe mesmo?” ou “As prendas são os pais que dão, não são?”. Nunca sei o que responder. Com que direito vou matar a esperança numa fantasia tão gira que fala de um senhor bondoso que distribui prendas a todos os meninos? Por outro lado, deverei perpetuar uma mentira e continuar a mistificação? Às vezes o pedido de esclarecimento é entre uma versão “Pai Natal” e outra “Menino Jesus”. A discussão entre as claques é acesa. Convém dar uma no cravo e outra na ferradura e concordar com o menino que resolveu a disputa: “O Pai Natal é o empregado do menino Jesus, porque este é pequenino para andar a distribuir prendas”. Have yourself a merry little Christmas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

# 25 Ingliche

Há palavras que fazem as delícias da audiência e só percebi porquê quando ultrapassei a minha “adultez”. Agora digo-lhes logo que “put” não é palavrão e que “page” não é “pum” em inglês. Mas o que os leva a um estado perto do paroxismo é quando escrevo “Food” no quadro. Está-se mesmo a ver, não está? The F word! E escrita pela teacher. Quando chegamos ao tema “animais da quinta” há sempre uns quantos que juram que cabra se diz “bitch” e que ficam incrédulos quando lhes afianço que bitch é cadela (as traduções eufemísticas dão nisto). Desconfiados ficam quando lhes respondo, impávida, que WTF quer dizer “mas que raio!”. Uma, sabida, ainda diz: “mas o meu irmão disse-me que eram palavrões!” “Quais?”Pergunto. Sem coragem para mos repetir em português, cala-se e os outros ficam na dúvida. O nível de conhecimentos de vernáculo é já muito, o de inglês é que nem por isso.
Há dias ouvíamos uma canção que dizia “Hello, boys / Hello, girls”. Pergunto com otimismo: “Adivinham o que são boys?” Está-se mesmo a ver que são... bois! Incrédula: “Bois? Então achas que a música dizia ‘olá bois’?” e acrescento, “Então girls não é meninas?” Responde-me:  “Ah, assim tinha de ser vacas”. Tem lógica.
Informo na primeira ocasião que “sorry, I’m late” não tem nada a ver com laticínios e que o contrário de “big” não é “Sumol”. Mas ainda assim há situações que, para quem sabe inglês, não são compreensíveis à primeira. Quando ensinava as cores, viro-me para um menino e pergunto-lhe “What’s your favourite colour?” Responde-me com toda a convicção: “De batom”. What?! Que raio de cor é essa? Até que percebo a confusão: Cola! Em vez de “colour”, soou-lhe a cola! E de entre as colas prefere as de “batom”. Não é óbvio?