Um blogue sobre a arte de doar o corpo à docência. Uma dádiva divertida, cansativa, emocionante mas nunca, nunca monótona.
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domingo, 6 de setembro de 2015
# 31 Humores
Os pequenos não escondem as emoções e, se for preciso, na aprendizagem das mesmas, ficcionam-nas. Quem não está habituado cai sempre na armadilha das lágrimas ou da gargalhada descontrolada. As mood swings em versão infantil podem ser desconcertantes. Vê-los passar de um semblante triste de cortar o coração, à mais descarada felicidade é tão normal como trocar de melhor amigo para sempre. Rir, chorar, gritar ou amuar são expressões ainda não domesticadas e de valor facial próprio. E à falta de análise laboratorial, como distinguir a lágrima genuína das outras? Fingirão a dor que deveras sentem ou sentirão como dor, as dores que deveras não sentem? Qualquer Pessoa ficaria confusa.
A Joana deixava cair lágrimas no que me pareceu uma tristeza profunda. Perguntei-lhe o que se passava. Abanava a cabeça desalentada. Não respondia e continuava a chorar. “Algum menino te fez mal?” Que não, que não era isso. Continuei a aventar hipóteses até que lá se descoseu e, entre fungadelas, disse-me que era o pai, que já não o via há muito tempo, que tinha ido trabalhar para longe. Comovida, pensei na crise e no desemprego que leva tantos pais para longe e abracei-a. Desconfiada e meio enciumada pela atenção que a Joana estava a ter, a Rita aproximou-se para se inteirar da situação. Expliquei que a colega estava triste porque o seu pai estava longe. “Longe?!” Disse a Rita. “Ó Joana, ainda ontem te veio buscar à escola e fomos juntas para a tua casa!” Perplexa, olhei para a Joana, esta encolhe os ombros, sorri, dá a mão à Rita e lá foram as duas à sua vida. Go figure...
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
# 15 Insultos
Há
aqueles momentos caóticos.
Quando de repente uma coreografia se descontrola e há miúdos pelo
chão, outros empinados nas mesas e os restantes num moche ao som do “Old
MacDonald had a farm”. Ou quando um projeto coletivo com tesoura e cola
acaba
numa sessão de cabelo cortado, cola nas mãos e roupas arruinadas. Nestas
ocasiões suspiro pela disciplina militar. Lanço uns berros aterradores e
uns
velados vitupérios à turba. Mas se na recruta insultar os magalas é
forma de
os disciplinar, na escola temos de ser mais subtis. Lá se me escapam uns
contidos “Tontos”
ou “Criaturas”. Mais ofensivos no tom sibilado com que são pronunciados
do que na substância propriamente dita. Ainda assim, há dias, uma menina
indignada responde-me prontamente: “Não sou criatura
nenhuma, isso são os animais”. Ups! Ciente do deslize e já a ver a
participação
do encarregado de educação, questiono filosoficamente: “Então não somos
todos
criaturas?” Perante o arzinho pouco convencido da ofendida, acrescento
em tom melífluo:
“Criaturas. [pausa dramática] de Deus!”. Ainda pensou um pouco antes de
assentir: “Ah, isso somos”. Safei-me. Até porque sabia dos antecedentes
religiosos da sua família. Agora quando me saiu um desesperado “Sua
monstra...inha” para a criatura que tinha cortado uma madeixa à colega
da
frente, a surpresa foi ouvir um entusiasmado: “Olha, monstra é o que a
minha mãe chama à
namorada do meu pai.” It runs in the family!
domingo, 15 de dezembro de 2013
# 12 Queda
Mal toca, a euforia toma
conta dos miúdos. Impacientes por saírem do redil, trotam em direção ao recreio
em algazarra. Se é difícil domá-los dentro de uma sala, num espaço aberto é
ainda pior. Correm, saltam, fazem pinos e acrobacias, tropeçam, caem e
magoam-se. E os perigos estão em todo lado. Sobretudo na cabeça dos professores
novatos, para quem cada pedra é um gume afiado, um baloiço uma catapulta, um
chão de cimento um ameaçador quebra cabeças... Milagrosamente, os miúdos vão
sobrevivendo aos intervalos. A teacher,
nem por isso. É uma agonia de trinta minutos, em constante aflição. Com o
tempo, vamo-nos habituando ao papel de guardador de rebanho endiabrado. A custo,
lá começamos a confiar um pouco mais na elasticidade e resistência das
criaturinhas. “Isso passa!”; “Está tudo bem, não é nada.”; “És resistente como
o Ronaldo”. Um afago, um pouco de gelo e siga a festa. Mas às vezes, é mesmo a
sério. E se qualquer arranhão que meta sangue provoca comoção geral,
imaginem a cena quando o pequeno Abel fendeu a testa num choque frontal com a
esquina da escola; ou quando a Andreia tropeçou nos pés e partiu o nariz. A
histeria do séquito alarmado sobrepõe-se ao da vítima. Entre a dor e o
atordoamento, o ferido nem sabe bem o que lhe aconteceu. Aos poucos, com tal
gritaria dos pares começa também a berrar e o pânico dos adultos, ainda que
disfarçado, está a prestes a transparecer. Pior foi quando os miúdos vieram a
correr dizer à “teacher” que a Leonor tinha caído nas escadas. Como era coisa
vulgar, despachei-os com um “Já passa”. “Mas ela não se levanta, ticher”,
insistem. Corro até às escadas e não a vejo. “Ali, em baixo, ticher, ali”. As testemunhas atropelam-se no relato. A miúda tinha-se sentado no parapeito do primeiro andar, começado a balançar até a gravidade fazer o que costuma fazer.
A
Leonor estava estatelada de costas no rés-do-chão. Gelei de pavor.
Entretanto
já mais adultos haviam ocorrido. A despeito do aparato, as
consequências até foram ligeiras: uma vértebra magoada. A sorte foi a
mochila. Amorteceu-lhe a queda. Mas cá para mim foi mais uma evidência
que "ao miúdo e ao borracho põe Deus a mão por baixo".
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
# 11 Educação
Mal pus os pés numa sala de aula percebi o eufemismo da expressão “ensinar
inglês”. Gerir conflitos, dar mimo e colo, apaziguar egos feridos, disciplinar,
apertar sapatos e cintos, desemperrar fechos, abrir os iogurtes e afins, ser
socorrista, ensinar a ter hábitos de higiene... tudo tarefas inescapáveis nesta
coisa que é ensinar, mas subtilmente omitidas na job description. Ser pai ou mãe não será muito diferente, certo? Pois,
mas no caso dos professores multiplicado por 20 ou 30 e sem a prerrogativa de sermos nós a decidir o
que comem, o que vestem, se usam brincos ou cristas com gel, se ficam acordados
até às tantas a ver a “Casa dos Segredos” - ou algo de calibre similar -, ou se
são castigados pela linguagem obscena e atitudes agressivas. A quem os espera
na escola resta apenas tentar remediar os efeitos da (des)educação em casa.
Obviamente
que nem todos os pequenos são mal-educados. E é lindo, por exemplo, vê-los a tentar
acertar na forma de tratamento: “Na sua casa tens varanda?” ou “O vosso filho
tem que idade?” Outros mostram conhecer o valor da delicadeza. O Francisco, ao ameaçar
o João no intervalo, dizendo que o mata se este não lhe der o Beyblade, emenda a
mão mal o admoesto: “Dá-me isso se não mato-te… se faz favor…”. Mas o cúmulo
da educação é a menina que pede civilizadamente a palavra, pondo o dedo no ar,
e depois se sai com um desconcertante: “Ticher, posso ir lá fora tirar macacos
do nariz?”; Ou quando outra me informa, em frente de toda a turma, e com ar
muito composto “Ticher, estou a tomar um remédio que me faz dar puns”. Um
estrondo.
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
# 10 Mimos
Os pequenos terroristas podem ser encantadores. Nessas
ocasiões renova-se o amor à profissão e o ego rejubila. Pode até ser lisonja
descarada ou uma esperteza recém-adquirida mas miminhos são miminhos e sabem bem
na mesma. E se forem acompanhados de um belo sorriso desdentado e covinhas
encantadoras, então não há quem resista. Olhem a sorte, receber abraços,
beijinhos e festinhas a toda a hora? E se são competitivos no resto, na disputa
pelo mais amoroso também não se acanham. Quando algum se lembra de dar uma flor
à teacher é quase certo que algum
canteiro vai ficar depenado. As muitas missivas de “Gosto da purfesôra (e
variantes)” - e respetivo desenho, invariavelmente eu e o admirador(a) - que vou guardando são também o resultado dessa contenda
pelo título “eu é que sou o mais fofinho e querido para a teacher”. Nos intervalos, conquistar a mão da teacher é troféu
apetecido. Fosse eu um polvo e ainda assim não teria tentáculos suficientes
para satisfazer a procura.
No segundo dia de aulas, uma menina confessou que
tinha ido à internet para ver como se dizia “bonita” em inglês. “Então porquê?”.
“Queria dizer que és muito piti”. Ohhh,
não é de derreter? Pretty! Não só
quis elogiar-me como foi aprender inglês para casa. Foi o céu. Mas divino mesmo
foi saber que a benjamim da turma, de cinco anos, gostava muito das aulas da “maigode”. Os meus constantes "Oh, my God" valeram-me o epíteto e até as funcionárias já o adotaram. Agora, o meu nome é god, my god!
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
#5 Participar
Com as apresentações percebi de imediato que os pequenos ADORAM falar de si. Eu, eu, eu… basta dar-lhes uma oportunidade e não se calam e como são muitos na sala, dar a volta a todos para dizerem de sua justiça pode ser interminável. Esta geração já nasceu a comunicar, com os colegas, com a professora, sozinhos. Falam, falam, falam… Quando eu andava na primária, por muito que fossemos faladores, não tínhamos esta apetência pelo protagonismo. A maioria das vezes queríamos era que nos deixassem ficar no nosso canto sem nos perguntarem nada. Hoje, quando se pede um voluntário para o que quer que seja, a turma toda lembra o burro do Shrek “Pick me, pick me”. Parece que todos querem opinar, participar - seja lá no que for -, o importante é dizer coisas. Pergunta-se onde passaram as férias e, de repente, uma simples ida à praia transforma-se numa saga islandesa! Demorei um pouco a dominar a técnica de os calar e dar a vez a outro. De novo, as regras do mundo lá fora não se aplicam. Gentileza e boa educação para interromper as intervenções não são lá muito eficazes. Há que ser firme e incisiva: “Pronto, já percebemos. Agora deixa ouvir o colega do lado.” E com rispidez suficiente para que o impenitente falador não levante novamente a mão, ou a voz, para continuar o testemunho. Quando conseguem retomar a palavra, por distração ou indulgência minha, há sempre um coleguinha diligente a denunciar o pecadilho: “Ele já falou, ticher! Já não é a vez dele!” Oiçam-me a mim, oiçam-me a mim. Nem que seja para delatar.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
#4 Apresentações
Arrumada a questão dos nomes,
quis passar a outro tópico. Mas nessa momento a grande curiosidade era a minha
altura. Sou muito alta e no meio daqueles seres parecia ainda maior. A pergunta
não se fez esperar: “Quantos metros tens?” Tendo sido sempre sensível quanto ao
tópico, naquele momento senti-me mais que nunca uma espécie de Gulliver no meio
de Liliputianos. Respirei fundo e respondi à altura da indiscrição: “Pr’aí uns
3 metros”. “Ohhh!” foi o murmúrio. Mas logo outra menina lá atrás dispara: “A
minha mãe é maior que tu, deve ter uns 4!”. Pois. A noção da realidade em
miúdos de 6-7 anos é mínima, mas o sentido de competição já está bem
aguçadinho! Perdido o interesse nos meus metros de altura viraram-se para o
item sensível seguinte: a idade. Sei que já não sou nova, mas gosto sempre de
pensar que pareço mais jovem. Entre adultos manda a etiqueta que nunca se
pergunte a idade a uma senhora. E eu já estou naquela idade em que não podendo dizer
um número abaixo de quarenta, agradeço a atenção da discrição. Mas eu não
estava entre seres educados. E a insistência da pergunta levou-me a fazer a
estupidez de rodear a questão, devolvendo, com uma pontinha de coqueteria, a
pergunta: “Vamos lá a ver então, hum, quantos anos é que me dão?”. “50?” “58?”
ouviu-se. Em cheio no ego! Esbocei um sorriso amarelo. “Não, tenho 67!!”. Diz
uma espertalhona: “A minha avó também é assim velha”. Não sei se foi a minha
cara, mas apressou-se a acrescentar: “Mas tu és mais bonita”. Vá lá, safou-se.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
#3 Estreia
Acostumada a trabalhar com adultos,
educados e cultos, a passagem para interlocutores abaixo dos 10 anos foi um
choque. Lidar com miúdos é uma surpresa constante e se achamos que já vimos de
tudo, enganamo-nos. Regras básicas da interação social? Esqueçam. Os miúdos não
são adultos em miniatura nem fazem ideia do que polimento, ou hipocrisia, se
preferirem, possam ser. Lição número um: estar preparada para as perguntas mais
indiscretas e as respostas mais inesperadas!
Comecei por pedir-lhes que se
apresentassem e apontei para o menino na primeira fila. Olhando confuso
perguntou: “O que é apresentar?”. Pois é. O processo de adequar o meu discurso
normal à faixa etária ia requerer algum treino. De repente tinha de eliminar
uma série de palavras e maneirismos de linguagem e sintonizar numa versão de
português para principiantes. Após uns segundos de desconcerto, refiz a pergunta:
“Os nomes, vamos dizer os nossos nomes”. Começo eu. Sou a teacher Isabel.” Logo um retorque com um sorriso de satisfação:
“Olha, a professora da minha mana também se chama ticher!” Tive de me conter para não me desmanchar a rir. Depois de
esclarecida a coincidência veio o regozijo de um menino cuja mãe também era
Isabel. Depois outro, desta feita era a avó, outro a tia, a prima, a vizinha….
A lista era interminável e sem saber muito bem como interromper aquela torrente
de alegria e frenesim pela quantidade de “isabéis” conhecidas pela audiência
acabei por perder quase o triplo do tempo que tinha previsto para o tópico: “Os
nossos nomes”.
sábado, 7 de setembro de 2013
#1 Vocações
Havia
os que queriam ser polícias, astronautas ou bombeiros. As meninas deliravam
imaginando-se modelos ou atrizes. Eu queria ser professora. Não sei muito bem o
que encontrava eu de tão fascinante em tal ocupação, mas era professora que
dizia querer ser. Alinhava as bonecas, e a minha irmã mais nova, e toca de lhes
debitar arengas que imaginava serem próprias do ofício de ensinar. Ainda sem
saber ler ou escrever agarrava em livros e descodificava-os à minha maneira,
obrigando a audiência a ouvir-me. As bonecas nunca se queixaram e os sorrisos
felizes eram recompensa suficiente. Podia até castigá-las, e nem isso esmorecia
o semblante radioso. É claro, não gostava de as castigar. Ou se calhar, só um
poucochinho. Mas que raio de professora seria eu se não soubesse impor a
disciplina? E depois, era para o bem delas que o fazia. Era meu dever incutir
naquelas cabecinhas ocas o conhecimento. Fosse lá isso o que fosse. E parte do
encanto de ser “a professora” era poder mandar. Receio que os trejeitos da
minha irmã não fossem sempre tão prazerosos quanto os das colegas, mas em todas
as classes tinha de haver a menina malcomportada. A bem ou a mal, achava que a
conseguiria convencer da importância de estar quieta, de aguentar os monólogos
sem fim e a concordar sempre com o que a “professora” dizia. A coisa quase
sempre descambava em gritos, puxões de cabelo e na mana mais pequena a correr
para a mãe a fazer queixinhas, acabando eu a ter de ir pregar para outra
freguesia. Ainda tentei o mano mais velho, mas esse já tinha outra escola e
quem acabava a fugir era eu.
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