Um blogue sobre a arte de doar o corpo à docência. Uma dádiva divertida, cansativa, emocionante mas nunca, nunca monótona.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
#35 Pais
Ah, pois e tal… adoro crianças, adoro ensinar e essas coisas todas. Tudo muito lindo, mas o que nunca se ensina aos aspirantes a professores é a lidar com os pais. E os pais podem ser mais complicados do que os infantes, com a agravante que àqueles não podemos mandar calar se estiverem a ultrapassar as marcas, nem temos autoridade para os corrigir quando dizem enormidades. A bem da verdade, há que sublinhar que a maioria é pacífica, preocupa-se e não causa problemas. O inferno são os outros. Os que minam a autoridade do professor e tomam sempre as dores dos seus príncipes, mesmo antes de saberem o que se passou. Os que folheiam obsessivamente os cadernos em busca daquela gralha que comprova a incompetência do professor. Os que aprenderam a dizer “DREL” e “Agrupamento” e agora ameaçam por tudo e por nada que vão fazer queixa. Os que fazem questão de vigiar os recreios, “pendurados” na vedação a assegurar-se que os rebentos não são molestados. Sim, que ainda esta semana o Manelzinho chegou com um arranhão. Está-se mesmo a ver que nem as auxiliares ou as professoras são capazes de tomar conta dos meninos. Os que dão palpites sobre métodos de ensino, sem nunca terem estudado o assunto mas que acham que sabem, porque afinal não deve de ser assim tão complicado. E, ao fim e ao cabo, de pedagogo e treinador todos temos um pouco. Os que nas reuniões de pais acham que aquele encontro é apenas para falar da sua cria e para quem qualquer pretexto serve para falar de si e do seu educando e de como este é um geniozinho, as mais das vezes, incompreendido pelo sistema. E, depois, há os que vêm ter connosco, elogiam o nosso trabalho e, assim como quem não quer a coisa acabam a mostrar-nos todo o sortido de “Raibãs verdadeiros” ou nos tentam impingir o relógio da moda: “Aproveite, senhora. Para si faço-lhe 10 euros. É um 'suatchi'.”
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sábado, 30 de janeiro de 2016
# 34 Anatomias
As idas à casa de banho só porque “me apetece ir dar uma voltinha lá fora” são um clássico. E quando um se lembra, lembram-se logo mais quatro ou cinco. E lá começa o corrupio. Para dissuadir as aflições menos urgentes a regra é que têm de pedir em inglês, e como deve de ser. Ora como geralmente são os menos empenhados que se lembram destes xixi-breaks constantes, a imposição até tira a vontade a uns quantos. Quando a precisão é mesmo muita, contorcidos, de pernas entortadas e joelhos juntos, aos saltinhos e agarrados ao entrepernas, balbuciam qualquer coisa atabalhoada que de inglês tem pouco, mas cujo caráter universal faria inveja a qualquer esperantista. E antes que se abra algum dique apresso-me a autorizar a ida: “Yes, you may go”. “Quê, ticher?” Traduzo “Pronto, vai lá à casa de banho.” Se não estão a aprimorar o inglês pelo menos o valor da linguagem corporal é dado adquirido. Ainda que o corpo, esse desconhecido, possua subtilezas e mistérios que ainda não dominam. No terceiro ano, dita o programa que aprendam os principais órgãos e suas funções. Fiada nisso, pergunto a uma reincidente das idas à casa de banho a toda a hora se tinha algum problema de bexiga. A plateia rebenta às gargalhadas e aos guinchinhos deliciados como se tivesse dito uma piada daquelas mesmo muito engraçadas. Acalmado o chinfrim, volto a perguntar se a Lara tinha algum problema de bexiga. “Ó Ticher! As meninas não têm bexiga, têm vagina!”. - “Ah, sim?!” -“Sim, aprendemos na aula. Os meninos é que têm bexigas. Quer ver?” E sem me deixar argumentar corre para o quadro e desenha algo de familiar... ainda pensei se estaria a ser gozada, mas perante o ar doutoral da explicação percebi que era mesmo a sério. "Tá ver isto aqui? São as bexigas. E as meninas não têm estas bolinhas, pois não?" Rematou com ar triunfal, como quem diz I rest my case.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2015
# 33 Dissonâncias
Ser uma professora que também é mãe é viver em repressão e dilemas
constantes. Na sala de aula, engolimos o ralhete aos miúdos que não trouxeram
as tampinhas para aquele trabalho de Natal tão original. E, como mães, rogamos
pragas (ainda que silenciosas) ao professor que deve achar que temos o tempo
dele para andar à procura de tampinhas.
Conhecedoras das manhas infantis, minimizamos as queixas das crias sobre as
respetivas professoras. E se amaldiçoamos os trabalhos de casa que infernizam
os serões curtos, defendemos a sua importância para o sucesso escolar.
Nas reuniões de pais, vítimas da empatia profissional, acabamos voluntárias
à força para todas e quaisquer “atividades de estreitamento de laços
escola-família”. O que, no nosso caso, é sair do trabalho e continuar no
trabalho. A mãe que há em nós esconjura essa moda de misturar escola e
família. Concordamos mentalmente com aqueles pais que, quando instados a participar
na vida da escola, dizem à boca pequena: “ora, ora, também não peço aos
professores para irem fazer o meu trabalho!” ou outros, mais enfáticos, que
rosnam um "estreitava era os laços nos pescoços de algumas mentes
iluminadas..." Pensamentos assassinos à parte, percebe-se a relutância de
alguns pais sobrecarregados.
Como professores, alertamos os papás para a importância de toda uma série
de boas práticas. Culpadas, remoemos as que nós próprias não cumprimos no
nosso papel de mães. Damos sermões aos miúdos sobre a importância da
alimentação saudável e à noite, envergonhadas, enfiamos no microondas uma piza
congelada, que o tempo não deu para mais.
A bem da sanidade mental neste jogo duplo, o melhor mesmo é aceitar a
sabedoria popular quando apregoa “faz o que digo, não faças o que eu faço”.
Tenham dó.
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terça-feira, 15 de setembro de 2015
# 32 Spirits
Não sei quando foi que os miúdos deixaram de ser apenas crianças a serem crianças. Hoje há rótulos para todas as personalidades: hiperativos, ansiosos, deprimidos, bipolares, com défice de atenção, antissociais, obsessivos, compulsivos, narcisistas, histriónicos, baixa autoestima... Poucos são os casos para levar a sério. Muitos são casos clínicos de falta de educação que podem resultar, de facto, num qualquer distúrbio psiquiátrico... Mas para os respetivos professores. Apaparicados pelos pais, os meninos “psicologicamente perturbados”, aka, mal-educados, sentem que podem fazer tudo impunemente. O Vasquinho passou a aula toda de pé e a importunar os colegas. Ralhei-lhe. A meia leca de gente empina-se para mim e diz: “A minha mãe diz que tenho traumaticismos!” Volvo-lhe: “Ah sim? E que tipo de traumaticismo? Bichos-carpinteiros?” Confuso, senta-se e acaba por render-se às gargalhadas da turma. Mas traumatizada fica uma professora quando lhe aparece um pai indignado porque o seu petiz foi repreendido. A birra monumental, que incluiu deitar-se no chão a espernear só porque foi contrariado, tinha, afinal, uma justificação perfeitamente lógica: “O meu filho tem acessos de raiva porque fica possuído dos espíritos da família. É também por isso que às vezes chega atrasado. São os espíritos. Já uma tia-avó dele também encarnava.” Só me ocorreu perguntar se também esverdeava, mas engoli a observação espirituosa, não fosse irritar ainda mais aquele espírito alterado. Vade retro!
domingo, 6 de setembro de 2015
# 31 Humores
Os pequenos não escondem as emoções e, se for preciso, na aprendizagem das mesmas, ficcionam-nas. Quem não está habituado cai sempre na armadilha das lágrimas ou da gargalhada descontrolada. As mood swings em versão infantil podem ser desconcertantes. Vê-los passar de um semblante triste de cortar o coração, à mais descarada felicidade é tão normal como trocar de melhor amigo para sempre. Rir, chorar, gritar ou amuar são expressões ainda não domesticadas e de valor facial próprio. E à falta de análise laboratorial, como distinguir a lágrima genuína das outras? Fingirão a dor que deveras sentem ou sentirão como dor, as dores que deveras não sentem? Qualquer Pessoa ficaria confusa.
A Joana deixava cair lágrimas no que me pareceu uma tristeza profunda. Perguntei-lhe o que se passava. Abanava a cabeça desalentada. Não respondia e continuava a chorar. “Algum menino te fez mal?” Que não, que não era isso. Continuei a aventar hipóteses até que lá se descoseu e, entre fungadelas, disse-me que era o pai, que já não o via há muito tempo, que tinha ido trabalhar para longe. Comovida, pensei na crise e no desemprego que leva tantos pais para longe e abracei-a. Desconfiada e meio enciumada pela atenção que a Joana estava a ter, a Rita aproximou-se para se inteirar da situação. Expliquei que a colega estava triste porque o seu pai estava longe. “Longe?!” Disse a Rita. “Ó Joana, ainda ontem te veio buscar à escola e fomos juntas para a tua casa!” Perplexa, olhei para a Joana, esta encolhe os ombros, sorri, dá a mão à Rita e lá foram as duas à sua vida. Go figure...
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
# 30 Bichos
(AVISO: esta crónica versa temas viscosos e poderá ferir os leitores mais sensíveis)
...E ao fim de umas semanas as defesas cederam. Enxames de bichinhos novos e oportunistas atacaram sem tréguas. Primeiro, veio o estrépito: tosse constante, pigarro alérgico a giz, espirros e expectoração a pedir alívio. Depois, pior ainda, sobreveio o silêncio. A voz esgotada e pouco acostumada a exigências traía-me, cobarde, fazendo fintas à minha genica de principiante. De outubro a abril foi este o calvário: constipação, rouquidão, afonia e de novo constipação, rouquidão, afonia... Um loop interminável até os meus entorpecidos anticorpos perceberem em que alhada estavam metidos. Da contenda, saí com imunidade para a vida. Vagas sucessivas de vírus e bactérias resvalam, agora, na couraça das minhas superdefesas. Exposta amiúde a chuva de perdigotos, gotículas de espirro, saliva e muco nasal recordo com incredulidade os tempos em que qualquer inocente perdigotozinho que me atingisse era recebido com um esgar de nojo. Ah, frescuras pré-teacher.
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