No cantinho das memórias nostálgicas da escola primária habitam os piolhos. Não há quem não tenha uma história para contar. Ou porque teve muitos, ou porque escapou incólume ou porque a respetiva mãe conhecia uma mezinha infalível para acabar com a praga. Mas as histórias conjugam-se sempre no passado. Acabamos por crescer e esquecê-los. Virtualmente extintos nas nossas cabeças passaram a ser uma espécie de mito urbano na cabeça dos outros. Ou dos muito velhos ou dos muito sujos. Até que voltamos à escola. E um dia dizem-nos, baixando a voz e olhando em redor: “Professora, devia apanhar os cabelos. Anda aí praga.” Inquiro: “Praga de quê?”; Sussurram: “Piolhos!”. Seria possível? Praga de piolhos numa escola, no século XXI?! Agradeci a informação mas no íntimo achei que seria alarmismo. Habituada aos abraços e mimos dos miúdos continuei como se nada fosse. E o cabelo continuou solto. Seria o risco suficiente para me fazer prescindir da vaidade? Achei que não. Indaguei entre as professoras e houve quem me asseverasse que nos cabelos pintados os piolhos não entram. Alívio. A auxiliar diz-me para não me fiar nisso. “Vinagre, professora. Tem de pôr vinagre após o champô.” E fala-me dos “lavagantes” que apanhou numa cabeleira infantil. Sugestionada começo a sentir comichões e a retrair-me ao contacto com as cabecitas infestadas. Em vão. Aferrada à ideia da tinta protetora recuso-me a considerar a hipótese de ter piolhos. Mas o inconsciente não tem pruridos e chego a ter pesadelos onde vejo colónias de parasitas a pulular no meu couro cabeludo. Acordada, a coceira também continua e acabo por pedir à minha mãe que me veja a cabeça... É então que me atinge o significado das palavras do cabeleireiro: “Só trabalhamos com a ‘Lupa Biológica’, tintas amigas dos animais!”.
Um blogue sobre a arte de doar o corpo à docência. Uma dádiva divertida, cansativa, emocionante mas nunca, nunca monótona.
terça-feira, 17 de junho de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
# 21 Decibéis
Talvez o sentido mais flagelado de quem trabalha com miúdos pequenos
seja a audição. As cordas vocais penam, é verdade, mas os tímpanos são
torturados. Achava que tinha experiência de sobra no que toca a ruído:
trânsito de Lisboa, sirenes, buzinas, toque incessante de telefones,
barulho de máquinas de imprimir... pfff, brincadeira de meninos.
Definitivamente, nada se assemelha à tonitruante gritaria de um recreio,
ou, num dia mau, de uma sala de aula. Com as suas vozinhas agudas e
cristalinas soltam guinchos capazes de competir com um porco em dia de
matança. E guincham se estão felizes, se estão zangados, se se magoaram,
se querem atenção. Oh, e se querem. A todo o instante. E para isso têm
de gritar ainda mais que o coleguinha, num despique sonoro que pede meças ao “iodelei” tirolês. O embate sonoro foi duro. Hoje já
aperfeiçoei a espécie de surdez seletiva que me permitiu sobreviver. E o
final do ano é sempre o momento de renovar essa habilidade, sobretudo
se houver um momento musical que envolva miúdos de pífaro em punho.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
# 20 Medo
Há ocasiões em que o nome “maigode” me assenta que nem
uma luva. E nem é porque consigo convencer as criaturinhas dos meus poderes
para lhes ler as mentes e para estar em toda a parte ao mesmo tempo. Sinto-me
uma espécie de Deus quando as coisas se complicam. Nessas ocasiões, ter o dobro
da altura e cinco vezes a idade de qualquer um dos presentes é quanto baste
para ser “a salvadora”. E as crises podem ser de muitos tipos: Emergência
médica, uma casa de banho - ou um miúdo - a pedir desinfeção completa, uma
trovoada, medo de fantasmas no Halloween, um pombo ferido caído no pátio, uma
aranha no tampo da mesa, varejeiras ou uma vespa a rodopiar pela sala... Há que
estar à altura da situação e não desiludir. Respiro fundo, afivelo um ar
controlado e resolvo tudo. Ou quase. Um dia, o histerismo descontrolado
espalhou-se a partir das filas do fundo. Sigo decidida para ver o que se
passava. Pelo grau de comoção podia ser algum sangramento nasal ou uma
lagartixa. Mas não. À medida que me aproximo, oiço a palavra que me fez
arrepiar da cabeça aos pés: BARATA. “Teacher,
é uma barata ENORME. Tá a fugir... Vai esconder-se” gritam. Estaco. Tento
reunir todo o meu autodomínio, mas não consigo avançar. Sem adivinhar o meu
horror, um dos miúdos salva-me. “Teacher,
venha cá ver, já a esmaguei... quer que a leve aí para ver?” “Não!”,
grito em pânico, “não, deixa estar... Foste muito valente. Agora vai buscar a pá
para a tirares daqui para fora.” Ri-se, "Não é preciso pá!". Claro
que não, se se tem mãos... e coragem, qualquer um consegue ser Lord of the
cockroaches.
quinta-feira, 13 de março de 2014
# 19 Doutores
Há dias o
frenesim tomou conta da escola. Mal me aproximei do portão, uma horda ululante
correu ao meu encontro. “Vem aí a teacher,
é a teacher”. Numa disputa para ver
quem era o primeiro a pôr-me a par das novidades, atropelavam-se nas frases.
Histéricos, repetiam que os doutores andavam a visitar a escola. “Mas quais
doutores?” Perguntei. Que eu soubesse, já não se vacinava nas escolas, como
antigamente. Isso sim, pensei, justificaria a agitação. Andaria alguma
delegação do posto médico a fazer uma ação de sensibilização? Elevando-se acima
da vozearia, diz-me a auxiliar: “É a presidente da Câmara e mais uns senhores
que estão a fazer uma visita à escola e vão passar pelas salas”. As auxiliares,
perdão, as “assistentes operacionais”, andavam também numa roda-viva a deixar
tudo no sítio e a enxotar os miúdos das zonas arrumadas. Fiz figas para não ser
uma das brindadas com a visita dos “doutores”. Please, não com esta turma: vinte e quatro miúdos turbulentos do
primeiro ano! Para prevenir anunciei, em tom grave e solene, que os “doutores”
andavam a ver quem se portava mal. Se viessem à nossa sala, teriam de estar em
silêncio e comportar-se como deve de ser. Já a pensar que me safara, entra a
presidente e a sua comitiva porta adentro. Claro, justo na hora da algazarra de
arrumar as coisas... Lanço um: “Silence,
please” e por obra e graça da presença dos “doutores” fez-se um silêncio
celestial. A cavalgar a sorte, arrisco pedir-lhes que cumprimentassem os
senhores em inglês. Sai-se o Hugo prontamente, para a Presidente: “Buenos dias, señorita!”
Aren’t they A D O R A B L E?!
sexta-feira, 7 de março de 2014
# 18 Ídolos
O programa de inglês é
todo ele recheado de celebrações. Às datas marcantes do calendário anglo-saxónico,
como o Halloween ou o Valentine’s, juntam-se ainda o São Martinho ou o
Carnaval. Parece que passo mais tempo a assinalar as datas festivas que a ensinar
tudo o resto, mas enfim, não há como evitar. Falar de costumes é o ponto alto dos tópicos
carnavalescos. As preferências dos miúdos espelham o zeitgeist e as variantes de escola para escola dão-nos a cor local.
Em alta, continuam as intemporais princesas, embora a versão fadas Winx tenha cedido lugar às personagens Monster High. Este cruzamento de Barbie
com o submundo do terror resulta num freak
chic irresistível para as miúdas – e para os pais, que reciclam diretamente
os fatos do Halloween para o Carnaval. Os rapazes continuam a sonhar com
superpoderes e rendem-se ao trio Superman, Spiderman e Batman. Este ano os
palhaços e os mágicos desapareceram e os super-heróis acabaram a disputar os
recreios aos militares de abril e aos polícias de faz de conta. Mas ainda há
sonhos de menino que passam por ser o Tony Carreira ou o Michael Jackson. Ou
então o David Maia, um cantor cigano idolatrado na turma e que só eu desconhecia. Entre as
ciganitas uma disse-me que se ia mascarar de “Solteira”. I beg your pardon? Incrédula com o meu desconhecimento, explica como
quem diz Duh!: “Sim, ticher, sabes, de
solteira, com saltos altos, minissaia, maminhas e com a cara pintada”. Of
course! The portrait of a (single) lady.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
# 17 Mundos
Indagar sobre os conhecimentos prévios de inglês, falar
de Londres e do Reino Unido e claro, saber se algum dos meninos já esteve em
Inglaterra são perguntas obrigatórias. Cada turma é um mundo. Se em algumas ter
ido a Londres não é nada de especial, noutras é uma fantasia. Nas turmas de
bairros mais abonados são vários os miúdos que já viram o Big Ben e o Palácio de Buckingham ao vivo. Falam entusiasmados dos
guardas da rainha e das fotos que tiraram junto aos seus ídolos no Madame
Tussauds. Mas são as experiências em hotéis com pequenos-almoços gargantuescos
que mais fazem sonhar. Em turmas de bairros pobres as experiências são
diferentes. O idílio turístico é substituído por uma imagem de local onde se
ganha a vida. Raros são os que já lá foram, mas quase todos têm um parente ou
um vizinho que lá trabalha. A família da Rita está de malas aviadas e parte no
final do segundo período. A Camila, do primeiro ano, entusiasmada com o tema
anunciou que já tinha vivido em Londres. Instei-a a partilhar a experiência.
“Boa, Camila! Então já sabes falar algumas coisas em inglês? E que viste? O Big Ben?”. Divertida, exclama: “Ó ticher, a mãe disse que era pior que
Cabo Verde. Viemos embora que eram só ratos em casa!”. Consternada, veio-me à
mente o Of mice and men, mas a gargalhada
geral dissipou o neorealismo steinbeckiano. Okay, eram ratos, mas eram ratos londrinos.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
# 16 Valentine’s
Roses are red/ Violets are blue/ Sugar is
sweet/ and so are you...
Os miúdos vibram com o
Valentine’s
Day. Por mais que tentemos transformar a ocasião numa celebração da
amizade e amor à família, eles querem mesmo é falar de namorados. Nos
cartões que improvisamos,
os corações e muitos “I love you” raramente são para os pais ou amigos. A
Andreia,
6 anos, confidencia-me orgulhosa: “Eu tenho um namorado, é um preto
(sic).
Chama-se João.” Está feliz e nas tintas para o politicamente correto. A
Catarina, também. Tem dois namorados e precisa de um cartão extra. Já a
colega do
lado resolve o assunto colocando o nome dos vários namorados
no mesmo postal. Rendo-me. O Acácio, para ser ainda mais avançado,
declarou que
era casado e tinha cinco filhos(!). Não querendo explorar o tema,
disse-lhes apenas
que meninos pequenos não podiam casar. A Taíssa concordou “Só aos
catorze, ticher. A minha irmã já tá prometida mas
só pode casar quando for grande”. Aos catorze, portanto. Esquecia-me que na gipsylandia
as coisas eram ligeiramente diferentes. Calei-me. Mas a data é propícia às
perguntas indiscretas: “Também vais
fazer um cartão para o teu namorado?” Respondo “Eu não tenho namorado”.
Espantados: “Não?!” Diz o mais sabido: “Claro que não, os velhos não têm
namorados, são casados. Não é?” Explico que nem sempre é assim e choco-os ainda
mais com a revelação que também não era casada. O que fui dizer! O Acácio olha
para mim e diz ”Isso é muito estranho! Tens um filho e NÃO és casada?” Velha e
ainda por cima sem um marido, could it get
any worse? Hey, kids! Leave this teacher alone.
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